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Baixa Idade Média - As Cruzadas

As Cruzadas: Guerra Santa e Transformações na Europa Medieval
O Cerco de Damasco (1148) conforme retratado nas Passages d'outremer, c. 1490

Introdução

    As Cruzadas foram um dos movimentos mais marcantes da Idade Média, reunindo religião, política e economia em uma série de expedições militares que moldaram a Europa e o Oriente Médio. Entre os séculos XI e XIII, milhares de cavaleiros, camponeses e até crianças partiram em nome da fé, mas também em busca de riquezas, terras e poder. Neste texto, vamos explorar as causas, os principais eventos e as consequências das Cruzadas, entendendo como elas influenciaram o mundo medieval e deixaram um legado que ainda hoje é discutido.

Por que as Cruzadas aconteceram?

A Crise do Feudalismo e a Necessidade de Expansão

    No século XI, a Europa passava por uma crise no sistema feudal. Com a fragmentação do Império Carolíngio, a autoridade central enfraqueceu, e a nobreza buscava novas terras para manter seu poder. Muitos jovens cavaleiros (chamados iuvenes por Georges Duby) não tinham heranças e viviam do banditismo. As Cruzadas surgiram como uma solução: uma chance de conquistar terras no Oriente e ganhar status.

O Excedente Populacional e a Pressão por Recursos

    Após as invasões normandas (século X), a população europeia cresceu rapidamente, mas as terras cultiváveis não acompanharam esse aumento. Isso gerou fome, conflitos e um excedente de pessoas sem oportunidades. As Cruzadas serviram como uma válvula de escape, enviando esses grupos para longe da Europa.

O Papel da Igreja e o Chamado de Urbano II

    A Igreja Católica, fortalecida pela Reforma Gregoriana (século XI), buscava consolidar seu poder. Em 1095, o Papa Urbano II fez um discurso emocionante no Concílio de Clermont, convocando os cristãos a libertarem Jerusalém dos muçulmanos. Ele prometeu perdão dos pecados (indulgências) e usou uma retórica de "guerra santa", unindo a Europa sob uma causa comum.

Ameaça Seljúcida e o Apelo de Constantinopla

Os turcos seljúcidas, que controlavam a Terra Santa, dificultavam as peregrinações cristãs a Jerusalém. Além disso, o Imperador Bizantino Aleixo I pediu ajuda ao papa contra os muçulmanos, temendo a queda de Constantinopla. Isso deu um caráter político às Cruzadas, misturando religião e estratégia militar.

Interesses Econômicos: Veneza e Gênova

As cidades italianas, como Veneza e Gênova, viram nas Cruzadas uma chance de dominar o comércio no Mediterrâneo. Elas financiaram expedições em troca de privilégios comerciais, enriquecendo com o transporte de tropas e mercadorias.

Os Tipos de Cruzadas

Nem todas as Cruzadas foram iguais. Elas podem ser divididas em três categorias:

a) Cruzadas Oficiais (Organizadas pela Igreja ou Reis)

    Primeira Cruzada (1096-1099): A única bem-sucedida, conquistou Jerusalém em 1099, mas com um massacre de muçulmanos e judeus.

    Cruzadas do Norte (Báltico): Foram usadas para converter à força povos eslavos e bálticos.

b) Cruzadas Populares (Movimentos Espontâneos)

    Cruzada dos Mendigos (1096): Liderada por Pedro, o Eremita, terminou em desastre, com muitos mortos antes de chegar ao Oriente.

    Cruzada das Crianças (1212): Um movimento controverso – será que realmente milhares de crianças tentaram ir à Terra Santa? Alguns historiadores acreditam que seja um mito.

c) Cruzadas "Internas" (Na Própria Europa)

Cruzada Albigense (1209-1229): Perseguição aos cátaros, um grupo cristão considerado herege no sul da França.

Reconquista na Península Ibérica: As Cruzadas também aconteceram na Espanha e Portugal, onde cristãos lutaram para expulsar os muçulmanos.

As 8 Cruzadas Oficiais e Seus Resultados
Mapa das Rotas das Cruzadas

Cruzada Ano Líderes Resultado

1ª Cruzada 1096-1099 Godofredo de Bulhão Conquista de Jerusalém (massacre)

2ª Cruzada 1147-1149 Luís VII (França), Conrado III (Alemanha) Fracasso em Edessa

3ª Cruzada 1189-1192 Ricardo Coração de Leão, Filipe II, Frederico Barbarossa Acordo com Saladino (acesso a Jerusalém)

4ª Cruzada 1202-1204 Veneza (Doge Dandolo) Saque de Constantinopla (traição aos bizantinos)

5ª Cruzada 1217-1221 André II (Hungria) Fracasso no Egito (inundações do Nilo)

6ª Cruzada 1228-1229 Frederico II (Sacro Império) Jerusalém recuperada por diplomacia

7ª Cruzada 1248-1254 Luís IX (França) Derrota no Egito; rei capturado

8ª Cruzada 1270 Luís IX (França) Morte do rei na Tunísia; fim das Cruzadas

Por que as Cruzadas fracassaram no Oriente?

Conquista superficial: Os europeus não conseguiram se integrar à região.

Disputas internas: Brigas entre nobres, venezianos e genoveses enfraqueceram os Estados Cruzados.

Falta de união: A Igreja não conseguiu manter a coesão entre os reinos cristãos.


Consequências das Cruzadas

a) Renascimento Comercial e Urbano:

Veneza e Gênova dominaram o Mediterrâneo, trazendo especiarias, sedas e conhecimentos árabes.

O comércio reativou a economia europeia, ajudando no surgimento da burguesia.

b) Avanços Culturais e Científicos:

Os europeus entraram em contato com a medicina, matemática e filosofia árabe, influenciando o Renascimento.

c) Centralização do Poder Real:

Reis como Filipe II (França) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra) ganharam mais poder, enfraquecendo o feudalismo.

d) Conflitos Religiosos e o Anti-semitismo:

Perseguição aos judeus aumentou, pois muitos foram acusados de "inimigos de Cristo".

O Cisma entre Oriente e Ocidente piorou após o saque de Constantinopla (1204).

5. Conclusão: O Legado das Cruzadas

    As Cruzadas não foram apenas uma "guerra santa". Elas foram um movimento complexo, envolvendo fé, poder e riqueza. Seu fracasso militar no Oriente não impediu que transformassem a Europa, reabrindo o Mediterrâneo ao comércio e acelerando o fim da Idade Média.

    Hoje, o termo "Cruzada" ainda é usado em discursos políticos e religiosos, mostrando como esse episódio histórico continua a ecoar. Para entender a Idade Média, é essencial estudar as Cruzadas – não só como batalhas, mas como um fenômeno que moldou o mundo medieval e o nosso.


Referências Sugeridas para Aprofundamento:

DUBY, Georges. A Sociedade nos Séculos XI e XII.

LE GOFF, Jacques. O Nascimento do Purgatório.

PERNOUD, Régine. Os Templários.


Mapa Mentas - As Cruzadas

01) Fatores Históricos

O Cerco de Damasco (1148) conforme retratado nas Passages d'outremer, c. 1490

a. Crise do Sistema Feudal:

  • Declínio da autoridade central após a fragmentação do Império Carolíngio (século IX).
  • Necessidade da nobreza em buscar novas terras e riquezas para manter o poder.

b. Excedente Demográfico:

  • Crescimento populacional na Europa após o ano 1000, pressionando recursos limitados.

  • Excedente populacional - a população europeia depois das ultimas invasões normandas passou a crescer, surgem os nobres sem terras, praticando banditismo;

c. Contexto Religioso e Político:

  • A Força da igreja e profundo sentimento de fé da época;

  • Reforma Gregoriana (século XI): Centralização do poder papal  e o combate à simonia.
  • Apelo de Urbano II em Clermont (1095): Retórica de "guerra santa" para liberar Jerusalém e unificar a cristandade depois da separação com o Oriente.

  • Pressão Seljúcida: Controle muçulmano sobre rotas de peregrinação e ameaça a Constantinopla, imperador de Constantinopla pede ajudar ao papa.

  • Empecilhos a peregrinação dos Cristãos a Jerusalém;

d. Economia e Comércio:

  • Interesse de cidades italianas (Gênova, Veneza) em dominar rotas mediterrâneas, esse interesse aconteceu durante as cruzadas, quando as cidades italianas passaram a se enriquecer com o comércio.

02) Tipos de Cruzadas

  • a. Oficiais:
    • Organizadas por papas ou monarcas (ex.: Primeira Cruzada, convocada por Urbano II).
    • Cruzadas do Norte (Báltico): Conversão forçada de povos eslavos e bálticos.
  • b. Espontâneas:
    Miniatura de Pedro, o Eremita, liderando a Cruzada Popular ( Abreujamen de las estorias, MS Egerton 1500, Avignon, 14º século)

    • Cruzada Popular (1096): Movimento de camponeses liderados por Pedro, o Eremita.
    • Cruzada das Crianças (1212): Mito ou realidade? Discussão historiográfica.
  • c. Cruzadas "Internas":

    • Albigense (1209–1229): Perseguição aos cátaros no sul da França.

    • Cruzadas para a Península Ibérica, a chamada guerra de Reconquista;


03) As 8 Cruzadas Oficiais:

Mapa das rotas das Cruzadas


  • Primeira Cruzada (1096–1099):
    • Conquista de Jerusalém (1099), massacre de muçulmanos e judeus.

    • A situação dos cristãos no Reino de Jerusalém, no Principado de Antioquia e nos condados de Edessa e de Trípole não era estável.

    • A queda de Edessa provocou a organização da Segunda Cruzada, que não atingiu seu objetivo;
      Os Estados cruzados em 1135

  • Segunda Cruzada (1147–1149):
    • Fracasso em Edessa; liderada por Luís VII (França) e Conrado III (Sacro Império).
    • Crítica de Bernardo de Claraval à falta de fé dos cruzados;

    • A queda de Jerusalém nas mãos do Sultão Saladino deu origem a Terceira Cruzada;

  • Terceira Cruzada (1189–1192):
    • Liderada por Ricardo Coração de Leão (Inglaterra), Filipe II (França) e Frederico Barbarossa (Sacro Império).
    • Acordo com Saladino para acesso cristão a Jerusalém.
  • Quarta Cruzada (1202–1204):
    Conquista da cidade ortodoxa de Constantinopla pelos cruzados em 1204 (BNF Arsenal MS 5090, século XV)

    • O Papa Inocêncio III convocou a Quarta Cruzada, que deveria atacar o Egito; os venezianos ficaram com a incumbência de providenciar o transporte;

    • Seguindo seus interesses comerciais, o doge veneziano Dandolo levou os cruzados para Constantinopla, que foi saqueada;
    • Debate historiográfico: Papel do papa Inocêncio III.
  • Quinta Cruzada (1217–1221):

    • conduzida por João de Brienne, não chegou a atingir seu objetivo, a conquista do Egito, fracasso após inundações do Nilo.

    • Participaram André II, rei da Hungria e Leopoldo VI, duque da Áustria;

    • Não confundir com a Cruzada das Crianças (1212).
  • Sexta Cruzada (1228–1229):
    Sacro Imperador Romano Frederico II (esquerda) encontra al-Kamil (direita), iluminação de Nuova Cronica de Giovanni Villani ( Biblioteca do Vaticano ms. Chigiano L VIII 296, 14º século).

    • Diplomacia de Frederico II (Sacro Império), que recuperou Jerusalém via tratado (1229).

  • Sétima Cruzada (1248–1254):

    • Liderada por Luís IX (França); derrota em Mansura (Egito) e mas foi aprisionado no Egito;
  • Oitava Cruzada (1270):
    • Morte de Luís IX na Tunísia; fim das grandes expedições.


04) Motivos do Fracasso no Oriente Médio:

  • caráter superficial da conquista, que não criou raízes no seio da população local;

  • As disputas entre os cruzados tiveram efeitos desastrosos, envolvendo lutas entre senhores feudais, choque entre venezianos e genoveses e entre as ordens religiosas;

  • No mesmo sentido atuaram as rivalidades nacionais e a incapacidade da Igreja em superá-las;

05) Efeitos e Consequências

  • a. Demográficos e Sociais:
    • Redução temporária do excedente populacional, mas sem impacto duradouro.
  • b. Econômicos:
    • Renascimento Comercial: Ascensão de Veneza e Gênova como potências marítimas.
    • Os comerciantes das cidades italianas de Gênova, Pisa e Nápoles reconquistaram o Mediterrâneo aos árabes; essa expansão teve um caráter marítimo, mercantil e popular

    • Introdução de produtos orientais (sedas, especiarias) na Europa;

    • Os cruzados quando voltavam a Europa passaram a ser um mercado consumidor desses produtos.
  • c. Culturais e Tecnológicos:
    • Transferência de conhecimentos (medicina, matemática árabe) para a Europa, contribuiu para o Renascimento e as Grandes Navegações.
    • Fortalecimento do anti-semitismo: Perseguições a judeus durante as cruzadas.
  • d. Políticos:
    • Enfraquecimento do Império Bizantino após a Quarta Cruzada (1204).
    • Centralização do poder real na Europa (ex.: Filipe II da França).
  • e. Religiosos:
    • Cisma Leste-Oeste (1054): Aprofundado pelo saque de Constantinopla (1204).

05) Legado Histórico

  • Longo Prazo:
    • Contribuiu para o Renascimento Urbano e o fortalecimento das monarquias nacionais.
    • Tensões Cristão-Muçulmanas: Narrativas usadas até hoje em conflitos identitários .

Linha do Tempo das Cruzadas

Linha do Tempo das Cruzadas

Início da crise do sistema feudal

Século XI

Cisma do Oriente

1054

Tomada de Toledo e início da reconquista da Península Ibérica

1086

Primeira Cruzada

1095-1099

Tomada de Jerusalém

1099

Segunda Cruzada

1147-1149

Terceira Cruzada

1189-1192

Quarta Cruzada

1202-1204

Saque a Constantinopla

1204

Cruzada das Crianças

1212

Quinta Cruzada

1217-1221

Sexta Cruzada

1228-1229

Sétima Cruzada

1248-1250

Oitava Cruzada

1270

Queda de Acre

1291

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